Como a Síndrome da Infância pode afetar o futuro da criança

Síndrome da Infância
Foto: Lucas Metz on Unsplash

A Síndrome da Infância pode levar as crianças a serem rotuladas de infantilizadas ou imaturas.

A Síndrome da Infância foi descoberta recentemente e afeta a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças.

Engloba diversos sintomas, como a disfonia (rouquidão), a enurese noturna (xixi na cama); escapes diurnos de urina e de fezes; o valgismo (joelhos em “x”); e a ortodonpatia (problema ortodôntico), entre outros, em crianças ouvintes, com bom potencial e exame neurológico normal.

A síndrome foi descrita pela primeira vez pelo diretor do Instituto de Foniatria de Campinas (SP), o médico foniatra e otorrinolaringologista, Dr. Evaldo José Bizachi Rodrigues nos congressos internacionais de São Paulo e de Palm Desert, no EUA, e publicada na Revista Brasileira de Otorrinolaringologia.

Impactos nas crianças

Por ser pouco conhecida, a síndrome pode levar as famílias e professores a rotularem de infantilizadas ou imaturas as crianças que agem aquém do esperado, quando estão em jogo essas relações, se comparadas com as realizadas por outras crianças da mesma idade, mesmo nível sócio cultural e de experiência, que adequadamente incorporaram o espaço e as relações espaço/tempo, ou seja, de causa e efeito. 

As crianças com a síndrome tendem a ser desligadas, desatentas, desorganizadas, com pobreza de conceitos e vocabulário, arredias e provavelmente com mau rendimento escolar, já que é muito sofisticada a passagem de som para letra na escrita e ao contrário na leitura.

Diante das dificuldades de aprendizagem e de desenvolvimento do filho, principalmente as relacionadas ao rendimento escolar, os pais costumam apelar para castigos e chantagens.

Quando não são atendidos, acreditam que as crianças agem de propósito para afrontá-los.

Segundo Dr. Evaldo, não adianta os pais, na cobrança de resultados, usarem palavras como “responsabilidade”, “oportunidade”, “objetivos de vida”, pois a criança que não entende o básico de causa e efeito, não realiza as tarefas mais simples do dia a dia, terá muita dificuldade para a compreensão desses conceitos mais complexos. A falta de percepção desse fato  por parte dos pais tende a gerar revolta nos filhos, intensificando o problema.

Outro equívoco cometido pelos pais é a tentativa de solucionar cada sintoma de maneira individualizada apenas. “Não basta procurar providenciar tratamento para  cada um desses sinais, assim como não basta prescrever anti-térmico para quem tem febre sem combater a sua causa”, afirma o Dr. Evaldo.

Causa comum: hipotomia

Também foram detectados na história clínica outros sintomas que afetavam as funções em que participam estruturas fonoarticulatórias, entre as quais: sucção débil, dificuldade em passar da alimentação líquida para a pastosa e da pastosa para a sólida, mastigação ineficiente e deglutição prejudicada.

Também foi observado o comprometimento da fala, que se manifestava pelo atraso, pela dificuldade com as consoantes líquidas, tais como (r), (l), (lhe), (x) e pela omissão de grupos consonantais.

Eram crianças geralmente inquietas e estabanadas, com prejuízo da atividade motora, principalmente a mais refinada, que acarretava importante comprometimento do padrão gráfico (desenho e escrita).

“Eu analisava regularmente esses dados sem entender porque estavam conectados, até que um dia me dei conta de que eles possuíam uma causa em comum: a hipotonia (flacidez muscular) e/ou a frouxidão dos ligamentos, que compromete a eficiência da atividade muscular”, explica o foniatra.

Essa hipotonia tem outra implicação muito importante. Segundo Dr. Evaldo, a criança hipotônica tende a encontrar dificuldade em adquirir a noção de espaço/tempo e como resultado apreender a relação de causa e efeito, que é fundamental para a maturação e a aprendizagem e para o ser humano entender e funcionar no mundo.

Uma criança com flacidez muscular realiza de maneira ineficaz movimentos essenciais ao seu amadurecimento corporal, o que compromete a possibilidade de enquadramento do espaço.

Isso afeta a aquisição do conceito abstrato de tempo e a qualidade das relações causa/efeito que consegue realizar, inclusive com  prejuízo para que adquira a noção de perigo, em que num dado momento se associa um fato presente com informações anteriores e se antecipa um possível resultado que pode causar dano pessoal. 

O primeiro paciente da Síndrome da Infância

Dr. Evaldo recorda que o primeiro paciente que chegou à sua clínica e que lhe chamou a atenção foi uma criança de aproximadamente três anos de idade, com um quadro de disfonia.

“Para falar ela precisava de muito esforço, o que fazia com que as veias do pescoço aumentassem de volume. A voz era quase inaudível”, conta. A criança apresentava intensa flacidez muscular, pois também mal conseguia parar em pé.  “A resposta ao tratamento, com 3 meses de duração numa primeira fase, foi extremamente satisfatória”, lembra.

Tratamento

O tratamento consiste na ingestão por parte do paciente de substâncias neuromusculotróficas, sem contraindicação, cujo intuito é tornar mais refinada a atividade motora e a percepção das relações espaço/tempo e causa/efeito que regem indistintamente todas as atividades. A dosagem, composição e estratégia de aplicação passam por uma avaliação clínica individual.

Adicionalmente à medicação, Dr. Evaldo recomenda que na interação dos pais com os filhos aconteçam momentos que facilitem a assimilação do conceito de espaço/tempo, que se traduz na relação causa/efeito.

Assim, é importante fazer com que a criança perceba como funciona e a importância do significado da medição de tempo (horas, semana, meses), de distância e de peso através de exemplos práticos do cotidiano.

“Incorporando a noção dessa relação causa /efeito macro, a criança terá mais facilidade para, no momento oportuno, entender e assimilar a mais sofisticada dessas relações que é passar sons para letras na escrita e vice-versa na leitura”, conclui.

O tempo do tratamento depende de cada caso. Se você observar qualquer um dos sintomas descritos nesta matéria procure um foniatra para uma avaliação clínica.

Só ele poderá diagnosticar seu filho e indicar os melhores tratamento.

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