Câncer infantojuvenil: Brasil registrou mais de 8 mil casos em 2020

Criança com câncer
Foto Sociedade Portuguesa de Beneficência / Reprodução

O câncer infantojuvenil geralmente têm origem embrionária.

O câncer infantojuvenil é a maior causa de morte não violenta de crianças e adolescentes no mundo. No Brasil são 2.565 mortes anuais, segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer do Instituto Nacional de Câncer (INCA).

Ainda de acordo com o INCA, estima-se que mais de 8 mil pessoas de 1 a 19 anos recebam anualmente o diagnóstico de câncer.

Os números são assustadores e acendem o alerta amarelo para os pais, que devem sempre observar qualquer mudança em seus pequenos.

Isoladamente, cada tipo de câncer infantojuvenil é raro, mas diferentemente dos adulto, a doença em crianças e jovens geralmente afeta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação. Os tumores em crianças geralmente têm origem embrionária.

“Na criança, o câncer, geralmente, tem como fator de desenvolvimento o resultado de alterações no DNA (gene) das células, que ocorrem muito precocemente, às vezes até antes do nascimento, e provocam a multiplicação celular de forma desordenada”, destaca a médica patologista Isabela Werneck da Cunha, vice-presidente para assuntos acadêmicos da Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP, e coordenadora médica da equipe de Patologia da Rede D’OR São Luiz em São Paulo.

Diagnóstico de câncer infantojuvenil

De acordo com o INCA, 8 entre 10 crianças e adolescentes diagnosticados com câncer podem ser curados se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados.

Para realizar o diagnóstico são feitos exames, entre os principais estão:

– biópsias – fragmentos de tecido ou órgão são retirados;
– punções aspirativas – células do sítio do tumor e líquidos de cavidades;
– peças cirúrgicas – amplas ressecções de lesões ou órgãos;
– imunohistoquímica – utilização de anticorpos contra antígenos específicos;
– patologia molecular – pesquisa de biomarcadores indicativos das doenças;

Com os resultados em mãos, o médico patologista pode avaliar e laudar, analisando todo o quadro para fazer o diagnóstico.

A partir daí é feito o planejamento para o tratamento.

Tratamento do câncer infantojuvenil

O tratamento do câncer infantojuvenil pode ser feito com quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Estes métodos podem ser adotados isoladamente ou em combinação.

“A definição da melhor abordagem terapêutica é feita por um time multidisciplinar, que contempla o médico patologista, radiologista, dentre outros especialistas em tumores pediátricos”, contextualiza a médica oncopediatra da Rede D’OR São Luiz, Viviane Sonaglio.

Sintomas de câncer infantojuvenil

Os sintomas em crianças e jovens podem ser semelhantes aos de doenças comuns da infância, por isso a dificuldade de se chegar ao diagnóstico de um tumor maligno.

Qualquer alteração no organismo de seus filhos ou queixas devem ser avaliados pelo médico quanto antes. Separamos 10 sintomas que podem ajudar os pais a identificar mudanças na saúde dos filhos:

1.  Mudança repentina nos olhos ou na visão: mancha branca nos olhos, perda de visão, estrabismo, protrusão do globo ocular. 
2.  Caroços pelo corpo ou inchaços e aumento de volume (abdômen, pélvis, cabeça e pescoço, testículos e glândulas) sem apresentar dor. 
3.  Febre inexplicável. que não tem melhora e sudorese noturna.
4.  Perda de peso repentina e sem explicação.
5.  Palidez e cansaço.
6.  Manchas roxas pelo corpo e sangramentos.  
7.  Dores nos ossos, nas articulações e costas.
8.  Alteração no caminhar, na fala, tontura, perda de equilíbrio ou de coordenação.
9.  Dor de cabeça frequente, muitas vezes acompanhada de vômito.
10. Tosse persistente ou falta de ar.

Se um ou mais dos sintomas acima persistir por mais de dez dias o médico provavelmente vai solicitar exames que vão ajuda no diagnóstico. Somente se houver  suspeita de câncer, um médico especialista em oncologia será acionado.

A confirmação do diagnóstico, na maioria das vezes, será feita pelo médico patologista, que é responsável pela análise macroscópica e microscópica do fragmento de tecido do órgão acometido.

Tipos de tumores infantojuvenil

A maior incidência de tumores na infância e na adolescência são as leucemias, os que atingem o sistema nervoso central e os linfomas, do sistema linfático.

Vamos falar um pouco de cada um dos tumores a seguir:

Leucemias

É o câncer pediátrico com mais incidência no país e com subtipos:

  • Leucemia Linfóide Aguda: é o tumor mais comum dos 2 aos 5 anos, podendo acometer também em idade adulta;
  • Leucemias Mielóide Crônica e Mielóide Aguda: (que acometem pacientes das mais variadas idades);

Linfomas

– A doença se desenvolve no linfócito, que é a uma célula do sistema imune de defesa. Esta célula pode circular pelo sangue, pela linfa ou mesmo permanecer nos gânglios e tem a função de organizar uma resposta mais específica contra um agente agressor.

O linfoma acontece por causa da proliferação descontrolada dos linfócitos. É dividido em dois tipos principais: linfoma de Hodgkin (95% dos casos) e linfoma não Hodgkin.

Neuroblastoma

É o quarto tipo de câncer mais comum na infância, com idade média de manifestação de 23 meses e pico até os quatro anos. É um pouco mais comum em meninos.

Se desenvolve em formas primitivas das células nervosas (neuroblastos) do sistema nervoso simpático. Pode atacar a glândula adrenal, coluna espinhal, tórax, pescoço e pelve.  

Cerca de 2% dos casos dos neuroblastomas têm como fator de risco a herança genética, ou seja, as crianças herdam um risco aumentado para desenvolver a doença de um dos pais.

Mudanças nos genes que acontecem durante o desenvolvimento fetal (anomalias congênitas) podem contribuir para um defeito de nascença e aumentar o risco para neuroblastoma.  

Hepatoblastoma

É um tipo raro de câncer no fígado. A maioria dos hepatoblastomas atinge o lobo direito e a partir dos primeiros 18 meses de vida até os 5 anos de idade.

Alguns fatores que podem aumentar o risco deste câncer são herança genética, crianças que tiveram precocemente infecção por hepatite B, que nasceram prematuramente e com baixo peso.

Osteossarcoma

É mais comum a partir dos 10 anos de idade, principalmente na adolescência, na fase conhecida como “estirão do crescimento”. Geralmente, se desenvolve com mais frequência em áreas onde o osso está crescendo rapidamente: ossos ao redor do joelho, no fêmur distal (a parte inferior do osso da coxa) ou na tíbia proximal, e nos ossos do braço próximo ao ombro. Pode surgir também nos ossos da pelve (quadris), ombro e mandíbula.  São muitos os subtipos do osteossarcoma, que são classificados de acordo com o grau: alto grau, grau intermediário ou baixo grau. Essa informação indica a agressividade do tumor. 

Sarcomas de Ewing – São tumores ósseos menos comuns que o osteossarcoma e ocorrem  com mais frequência no início da adolescência. Esse tipo de câncer tem origem nos ossos pélvicos (quadril), na parede torácica (costelas ou escápulas) ou no meio dos ossos da perna e podem ser classificados como: Sarcoma de Ewing ósseo, o mais comum deles, Sarcoma de Ewing extraósseo e Sarcoma Neuroectodérmico Periférico Primitivo. De acordo com evidências científicas, algumas alterações genéticas podem levar ao desenvolvimento do Sarcoma de Ewing. A maioria das células tumorais apresentam alterações no gene EWSR1, que é encontrado no cromossomo 22. Em alguns casos, pode haver também mutações no gene FUS, do cromossomo 16. Essas mutações não são herdadas. Elas se desenvolvem em uma célula após o nascimento, sem causa conhecida.

Rabdomiossarcoma – É um tumor que faz parte do grupo de sarcomas das partes moles. Se desenvolve nos músculos ligados aos ossos e atinge, principalmente, as regiões da cabeça e pescoço, sistema urinário e extremidades. Em 15% a 25% dos casos a doença é diagnosticada já com metástase (disseminada localmente ou à distância). Para saber se as células são cancerosas, e de que tipo, é necessária uma biópsia, que é analisada ao microscópio pelo médico patologista. Há vários tipos de biópsia e a escolha do procedimento vai depender da localização da massa tumoral e da idade da criança. No caso do rabdomiossarcoma, a biópsia pode ser cirúrgica, por agulha grossa ou core biopsy ou ainda biópsia por aspiração por agulha fina (BAAF). 

Tumor de Wilms – Também conhecido como nefroblastoma, o tumor de Wilms é um câncer que tem origem no rim. É um tumor renal mais comum na infância.  Pode acometer um ou os dois rins. A Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) desenvolve um estudo sobre tumor de Wilms, com apoio da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) e o Brasil, atualmente, apresenta o maior número de casos registrados nessa pesquisa em andamento. Para diagnosticar o tumor de Wilms, são realizados exames de imagem, como ultrassonografia de abdômen, radiografia de tórax, tomografia computadorizada de tórax, abdômen e pelve, ressonância nuclear magnética de abdômen e em alguns poucos casos biópsia da massa que é analisada pelo médico patologista.

Câncer do Sistema Nervoso Central (SNC) – Esse tipo de câncer acontece quando há o crescimento de células anormais no cérebro das crianças. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), corresponde ao tumor sólido mais comum na infância. Assim, é preciso estar atento a sinais e sintomas, como dor de cabeça persistente, vômito, visão alterada, sonolência, dificuldade para andar, crises convulsivas, perdas de marcos de desenvolvimento, entre outros.  Em linhas gerais, o médico poderá solicitar exames de imagem, como a tomografia computadorizada de crânio com contraste e/ou ressonância magnética de crânio.  Na presença de um tumor cerebral, a biópsia é a única maneira de fazer o diagnóstico definitivo. É este exame que aponta se o tumor é maligno ou benigno, por exemplo.  

Retinoblastoma – Uma doença rara, mas que é o tipo de câncer de olho mais comum em crianças. O retinoblastoma se desenvolve na retina, localizada na parte posterior de olho. A doença é mais comum em bebês e crianças pequenas. Raramente é diagnosticado em crianças com idade acima de 6 anos. Se diagnosticada precocemente, as chances de cura são de 90%. No entanto, se a doença já estiver disseminada no olho esse percentual cai de forma acentuada. De caráter hereditário ou não, ocorre por meio de mutação em um gene no cromossomo 13. Pode afetar os dois olhos ou apenas um deles. O sinal mais evidente do retinoblastoma é a leucocoria que consiste em um reflexo branco semelhante ao do olho do gato, quando um feixe de luz artificial (o do flash no momento de uma foto, por exemplo) incide através da pupila. Em olhos saudáveis, esse reflexo é vermelho. Além disso, a criança também pode apresentar baixa visão, estrabismo e deformação do globo ocular. O diagnóstico pode ser feito logo que a criança nasce, na maternidade, ou em exames de rotina no oftalmologista nos primeiros anos de vida com o Teste do Reflexo Vermelho. Depois, exames de fundo do olho e de imagem, como ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética nuclear completam o diagnóstico.

Também acometem crianças e adolescentes o neuroblastoma (tumor de células do sistema nervoso periférico, frequentemente de localização abdominal), tumor de Wilms (tipo de tumor renal), retinoblastoma (afeta a retina, fundo do olho), tumor germinativo (das células que originam os ovários e os testículos), osteossarcoma (tumor ósseo) e sarcomas (tumores de partes moles).

Retinoblastoma infantil 

O Retinoblastoma é um tumor ocular mais comum na infância, atingindo a retina. O tumor pode ser esporádico e afetar um olho apenas em 60 a 70% dos casos.

O sinal mais comum para identificar o tumor é o reflexo branco ou reflexo do olho do gato, (leucocoria). Os pais percebem esse reflexo principalmente em fotos com flash.

Outros sinais são: estrabismo, perda da visão, vermelhidão dos olhos, sangramento de alguma parte do olho, heterocromia (um olho de cada cor) e glaucoma.

Segundo a pediatra Dra. Loretta Campos, o mais importante é que o Retinoblastoma é um dos poucos tumores que são prevenidos na infância com altas taxas de cura se diagnosticados precocemente.

“Portanto, é necessário avaliação do oftalmologista no primeiro mês de vida e depois a cada 6 meses até os 2 anos de idade para diagnosticar os Retinoblastomas que surgem mais tardiamente,” explica a médica.

Suporte psicossocial ao paciente e aos seus familiares

O progresso no tratamento do câncer na infância e na adolescência foi extremamente significativo nas últimas quatro décadas.

Cerca de 80% das crianças e adolescentes diagnosticados precocemente podem ser curados, se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados.

A boa notícia é que maioria dos pacientes terá boa qualidade de vida após o tratamento adequado.

A cura não deve se basear somente na recuperação biológica, mas também no bem-estar e na qualidade de vida do paciente.

Por isso deve ser dado suporte psicossocial ao paciente e aos seus familiares desde o início do tratamento.

O INCA publicou uma carta aberta para os pais, que pode ser conferido neste link.

Lembre-se que em momentos como esse, toda a ajuda é bem-vinda, por isso procure um profissional que possa ajudar você e sua família a passar pelo processo.

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